A saúde da população negra 120 anos após a abolição

Por Dra. Berenice Kikuchi *

           A temática saúde da população negra, tem seu marco inaugural, enquanto iniciativas que cobram do poder público políticas especificas de saúde para a população negra, na década de 90,  período  esse  que ficou conhecido como ciclo social, em função da intensa mobilização e participação dos movimentos sociais no mundo. Entender o mundo dentro de um contexto social, justo, digno e de respeitabilidade mutua entre os seres que  o ocupam, é estabelecer uma nova ética no qual o meio ambiente deixa de ser um "lugar para viver"  e passa para a lógica de ser um lugar onde se preserva a vida, considerando todos os elementos que compõem o ecossistema universal. Ou seja, a ocupação dos seres humanos no mundo deve ocorrer de forma harmoniosa que garanta desenvolvimento e sustentabilidade.

           Ao pensar o mundo, se faz necessário localizar os humanos como "seres que  ocupam o mundo".  Em função disso, as lutas sociais são travadas entre nações, estados e regiões, baseadas na relação de poder que cada um tem para ocupar o mundo. A concentração de riquezas em grupos econômicos garante  o poder político historicamente hegemônico baseado na exploração da pobreza e desta forma mantém um exército de reserva ou de cidadãos de segunda classe que se sujeitam as mais perversas condições de vida para se manterem no mundo. É dentro dessa compreensão do direito a vida digna que os movimentos sociais passam ao enfrentamento, apontando para os governos e governantes de forma organizada a necessidade de reparar injustiças históricas e trazer os desprovidos de poder para o centro das discussões nacionais e internacionais.  Daí a importância das conferências da  Organização das Nações Unidas - ONU em um período, no qual  os chefes de estado  passam a se preocupar com o meio ambiente, sustentabilidade, respeito mútuo e vida  com dignidade, ou seja, que os direitos humanos sejam de fato cumprido em  todos os países.

           Os movimentos sociais negros, tanto no Brasil como no mundo, enquanto povo da diáspora africana, durante séculos vem construindo o seu espaço de viver nos países para onde foram transplantado. No entanto, o enraizamento por permanência  não garante a estes a cidadania plena, uma vez que a cor da pele,  remete a uma discriminação cultural de origem que delimita o espaço social, cultural, econômico e político de viver na sociedade brasileira.   Entender o processo de exclusão por origem e como a sociedade brasileira se comporta em relação a essas lembranças  tem contribuído para o aperfeiçoamento político reivindicatório das organizações sociais negras. O cotidiano aponta iniqüidades no viver dos dois grupos étnicos majoritários identificados no Brasil como negros (representado por pretos e pardos)  e   brancos. Percebe-se entre esses dois grupos disparidade econômica, social, educacional, trabalhista,  cultural, ou seja, em todos os campos do conhecimento e da vida cotidiana, seja no espaço urbano ou rural, onde o grupo representado pelos identificados como brancos possuem valores agregados em suas vidas numa relação de duas ou três vezes mais do que os identificados como negros.

           Consideramos aqui que os brancos embora tenham condições de vida e de saúde melhores que as dos negros, esses patamares também são limítrofes em termos de padrão de vida,  uma vez que  uma parcela muito pequena de brasileiros fazem parte dos economicamente incluídos. Resta enfim uma grande massa de pobres uma vez que a classe considerada como "média" teve perda econômica substancial em  decorrência da estática  salárial  e vem   engrossando assim a grande massa de pobres brancos. Entretanto os indicadores comparativos demostram que a população negra tem uma desvantagem econômica, social, educacional, política e epidemiológica,  quando comparada aos identificados como brancos que nós remetem a pensar nos tentáculos do escravismo. Os tentáculos do racismo, discriminação, exclusão  permearam o século 20 e adentra o século 21  sem uma sinalização concreta de reversão a curto prazo.   Nesta lógica chegamos ao triste resultado de estar sempre comparando brancos pobres com pretos miseráveis. Entretanto, é na saúde/doença que as iniqüidades tomam caráter mais perverso, já que a população negra está em primeiro lugar na  mortalidade infantil,  mortalidade materna, HVI/AIDS, Câncer de colo de útero, doença infecto parasitaria entre outras. Todos esses dados muito bem documentados estatisticamente pelo Ministério da Saúde o qual recentemente aprovou no Conselho Nacional da Saúde a Política de Atenção Integral a Saúde da População Negra. Um grande passo conquistado por meio dos  movimentos social negros. Um começo para que possamos sair deste lamentável  primeiro lugar nos indicadores epidemiológicos.

* diretora técnica do Ambulatório de Enfermagem da Associação de Anemia Falciforme do Estado de São Paulo

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